MAESTRO ANTONIO CARLOS NEVES CAMPOS (1948-2013)

Leia a notícia sobre o seu falecimento no jornal " O Progresso de Tatuí"



Foto: Prefeitura de Araraquara 

Abaixo transcrevo o artigo que minha amiga Neusa Fleury escreveu em sua homenagem:

Um amigo desligado

A história ele mesmo me contou, numa tarde de muitos causos e risadas. A sensação de conversar com o maestro Antonio Carlos Neves Campos era como encontrar com um velho conhecido, num papo na cozinha de casa. Fumou muito durante anos, e confessou que até tomando banho costumava acender um cigarro (invariavelmente colocava as bitucas no alto do box do chuveiro, sempre na mesma posição, enfileiradinhas). A família reclamava, é claro. Mas começaram a ficar preocupados quando perceberam que o maestro saía do banho com uma mancha vermelha na testa. Perguntaram o que seria aquilo, e ele não soube responder. Seria alergia ao shampoo, ao sabonete? A mancha vermelha na testa do chefe da família incomodava, mas ninguém tinha uma explicação convincente. Até que um dia ele mesmo matou a charada: é que costumava dormir tomando banho, com a água caindo quentinha nas costas. Para evitar um acidente com aquele cochilo em pé durante o banho, apoiava a testa no azulejo, o que provocava a mancha vermelha...
Lembrei desta e de outras histórias quando  soube da sua morte esta semana. Neves era um maestro diferente, bem longe daquela imagem de poder que muitos carregam. Não deve ter daquelas fotos midiáticas em que os maestros aparecem regendo com o rosto contorcido e cabelos esvoaçantes. Foi um homem simples, generoso e educador nato. Conquistou muitos amigos, e na minha longa caminhada buscando parceria para projetos culturais, sempre pude contar com ajuda dele.
Apesar de ter dirigido a maior escola de música da América do Sul durante quase 25 anos, ter feito arranjos e tocado com músicos importantes no Brasil e exterior, Neves não colocava um fosso entre ele e o interlocutor. Construía rápidas pontes de entendimento, numa humildade que só os grandes possuem. Nos quase 25 anos em que esteve à frente do Conservatório de Tatuí, usou seu temperamento cordial e afetuoso para conseguir com que a escola crescesse e se projetasse com a importância que possui hoje em todo o país. Passou por vários governantes, e conseguiu caminhar na estrada perigosa e traiçoeira do meio político, com objetivo de conseguir simpatizantes para a sua causa, a educação musical.
Ainda bem que homenageamos o maestro em vida, durante o Festival de Música em 2010. As pessoas precisam saber que seu esforço e trabalho de toda a vida são reconhecidos.  Pudemos dizer isso a ele, que andava frustrado com o rumo burocrático que o Conservatório de Tatuí estava tomando depois de seu afastamento. Com o ambiente de trabalho contaminado por relações impessoais, a produção musical ficou abalada. É que, quando não existe idealismo e convicção, os dirigentes se voltam para o perfeccionismo administrativo, apropriado para escritórios de contabilidade, mas broxante em atividades criativas como a música.
Contei a história que começa esse texto porque músicos costumam ser desligados, e o maestro Neves também era. Esquecia as chaves, os documentos, a carteira, nomes das pessoas e outras coisas. Mas uma coisa ele nunca esqueceu: ser amigo e verdadeiro.




Neusa Fleury
Diretora da Biblioteca Municipal “Tristão de Athayde”
Ourinhos - SP
Jornal Novo Negocião de 25 de outubro de 2013.

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